Não tenho a intenção de ser um simples cético, embora minhas considerações a seguir me farão parecer. Em verdade apenas problematizarei a alternativa interacionista.
Como ser interacionista quando se tem tantos alunos em sala? Sim pois para cumprir uma estratégia interacionista se faz necessário atender às peculiaridades de cada aluno. Pois para cada um deles o objeto de aprendizagem terá um distinto significado, já que cada qual é cercado de um específico contexto familiar, social, político e cultural, sem mensionar outras peculiaridades que assim como os pontos citados, também influenciarão na cognição de cada indivíduo.
Faço logo então a crítica ao sistema escolar. Seria extremamente difícil, como nadar contra a correnteza, aplicar uma educação interacionista numa escola onde predomina o modelo estrutural ortodoxo, onde não só a estrutura escolar impossibilitará o bom desenvolvimento do projeto em questão como os próprios alunos e professores, imbuídos voluntariamente ou involuntariamente de tradições, preconceitos e aversão à novas idéias, servirão de freio àquele que tentar diferente.
Pois bem. É chato fazer o papel de ''advogado do diabo", mas alguém precisa desempenhá-lo. E não é de todo mal, aliás minha intenção com isso é que não deixemos de tentar novas didáticas, mas que a façamos preparados para não desistir no primeiro contratempo.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
CURRÍCULOS – Em constante mudança
Sobre os currículos, sabe-se que muito se tem mudado do decorrer dos anos. Passamos por uma série de tendências até alcançar o que hoje temos por teorias pós-críticas, por exemplo.
O que penso sobre as mudanças? Naturais, devo dizer primeiramente. Sim, pois acompanham seus respectivos contextos, atendem voluntariamente ou involuntariamente às tradições, ou às reivindicações de grupos sociais, às resistências e protestos de outros. O currículo de ensino está inserido dentro de uma sociedade e pretende influenciar a mesma, mas por outro lado não deixará de ser também influenciado. Se o currículo fora outrora extremamente ortodoxo, deve-se considerar que também assim o era o contexto que o cercava, ou se fora ou ainda é usado como ferramenta de manipulação ideológica, é porque também assim se dão as relações nos meios exteriores a escola.
A importância de estar ciente das mudanças e mais que isso, o por que das mudanças, está no fato de que se faz essencial a compreensão da estrutura escolar e os interesses que nela por vezes convergem e por muitas outras entram em conflito. Os currículos serão dinâmicos, porque as mudanças sociais se dão de forma dinâmica, o professor, portanto não compreenderá seu meio de atuação se não estiver atento ao mundo que lhe cerca.
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Professor de História e Socialização
Se educar compreende adequar um cidadão à vida em sociedade, entende-se – de acordo com um raciocínio lógico – que o que se aprende não parecerá distante ou tão pouco estranho ao estudante. Uma vez que o que se supõe aprender – de acordo ainda com um raciocínio lógico - dirá respeito às circunstâncias da vida em sociedade, fatos palpáveis do cotidiano. Nada mais óbvio então do que esperar que o estudante entenda o tempo e o ambiente de aprendizagem como algo no mínimo plausível, que lhe faça sentido, que possa, a cada risco no quadro e a cada palavra proferida pelo professor, perceber o vínculo entre o que se estuda e o que se vive. Mas então por que lhes parece tão indecifrável e sem sentido a maioria daquelas contas matemáticas e fórmulas químicas, ou histórias de povos tão distantes às suas culturas?
Gosto das idéias de Paulo Freire. E nesse momento escrevo sobre um de suas idéias que apesar de geniais, muito simples. Ao educar pedreiros e agricultores, Freire pensava por que usar palavras distantes de suas realidades quando se pode, por outro lado, adequar o vocabulário ao dia-a-dia daqueles estudantes? Que se fale de tijolos, cimento, que se fale da terra, da alface. Que este seja o bê-á-bá deles, que separem em sílabas seus tijolos e alfaces. Não. Não pensem que com isso os submeteríamos a condição de miseráveis trabalhadores. Pois isso já o são. Melhor então que saibam, e com uma educação voltada para suas vidas, entendam suas posições políticas e históricas dentro da sociedade que estão inseridos. E que depende deles a manutenção de tal posição social.
Com base nas idéias de Freire, penso então que é nossa função como professores mostrar a cada aluno, de forma transparente e verdadeira, os lugares que ocupam e que podem ocupar. Mostrar-lhes a cultura que os familiariza com o passado e o meio presente, e denunciar as que lhes querem incutir à força. Devemos lhes perguntar, devemos ouvir. Que procuremos num primeiro contato, saber sobre seus mundos, sensibilizar com suas causas. Que procuremos saber sobre a comunidade onde vivem e então falar-lhes um português inteligível. Que sentido fará para um garoto negro, por exemplo, morador de uma comunidade carente, a história dos gregos e romanos? Nada, ou quase nada! No máximo uma boa estória que entretém. Mas estória com o objetivo restrito de entreter que se leia em casa. Pois a história que se ensina num ambiente de aprendizagem deve, em minha opinião, visar antes a conscientização, o desenvolvimento do raciocínio político, social e cultural. Que se ensine sobre as vicissitudes do dia-a-dia, que deixe o cidadão forte, armado para a vida, que deve querer-lo menos que a morte. Sim, pois falo da grande maioria desbastada.
Perguntem-me então caros colegas! Aquilo que não quer calar.
E se estivermos de mãos atadas? E se nós professores tivermos que cumprir pré-determinados conteúdos em pré-determinados espaços de tempo? E se desta forma não estiver ao nosso alcance cumprir uma perspectiva própria de ensino?
Meus colegas, futuros honoráveis professores. Quem serei eu para saber o que dizer-lhes nesta hora? Não poderia lhes dizer o que é certo e o que é errado, pois nem mesmo exerci a profissão da qual falo neste momento. Porém, o que falo é com base em minha longa experiência como aluno e minha breve experiência acadêmica, ou mesmo experiência de vida adulta. E se não tenho a intenção de dizer-lhes o certo ou o errado, deixo ao menos minha sincera opinião de humano simples e errante: Sejamos honestos com nossos estudantes. Sejamos honestos com nós mesmos. Não nos imaginemos mestres, mas sim estudantes mais velhos com muito a contribuir aos mais novos[1]. Que lhes mostremos, por exemplo, o que é um currículo e para que serve, e à que lhes submete e nos submete, e o que gostaríamos de ensinar e o que poderemos ensinar por conta disso. Que nossos atos sejam tentativas meus amigos, e não fórmulas prontas, por mais que as amarras venham a nos limitar.
[1] Pensamento de meu professor de capoeira, Mestre Pinóquio (apesar de sua sábia modéstia, o chamamos de mestre).
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
“PORQUE NÃO” NÃO É RESPOSTA. E “PORQUE SIM”, É?
Aos pais,
Senhores adultos responsáveis, aprendi que tenho que ir à escola “porque sim”. Entendi que a matemática é necessária e que um dia eu vou entender o porquê e “tá acabado”. Entendi que estudar os gregos e romanos é bonito e que toda sexta-feira temos aula de artes onde fazemos desenhos e pensamos: “nem tudo na escola é chato”. Assim como entendi que temos duas aulas de educação-física durante a semana para pensarmos: “ir a escola ainda faz algum sentido, nela também nos divertimos”. Aprendi que devo saber conjugar todos os verbos, só não entendo por que mesmo nunca usando aquele tal “vós”, somos obrigados a estudá-lo. Mas a professora disse que era importante “porque sim” e ficou tudo certo. “Porque sim”, para nós crianças, é igual “amém” para os religiosos, muito convincente. Perguntei por que as carteiras eram alinhadas, as paredes eram brancas, as roupas eram iguais, e me disseram: “porque sim”. Aprendi que o aluno obedece ao professor, o professor ao diretor e este a deus. Ou seria ao presidente? Não sei. Isso ainda não está muito claro pra mim, mas no fim todas estas figuras mandam, e não devem ser questionadas, isso eu bem entendo. Por fim, aprendi que estudar é importante e não é difícil, só não faz muito sentido... Mas é assim mesmo. “PORQUE SIM”!
Assinado: Joãzinho Aluno (que significa: Joãozinho que não tem luz, desalumiado, apagado, burro, esperando a salvação. De quem?)
"Another Brick in The Wall"
A escola, a meu ver, é antes de qualquer coisa, um instrumento para preparar grupos que serão inseridos num sistema social-político maior. Desta forma me parece nítida a intenção de cada detalhe da estrutura escolar, desde a organização física até a estrutura hierárquica burocrática de se reger uma escola.
Exponho de maneira rasa neste primeiro parágrafo, a minha opinião sobre a intenção básica designada a instituição escolar. Desígnio ditado por poucos, visando atender aos interesses de poucos (a classe dominante). Mas por outro lado não ousaria ignorar que dentro da escola encontramos indivíduos, que como indivíduos têm idéias próprias e peculiares. E aí caberia a discussão sobre a função e os desafios de cada professor. Tal como também caberia a discussão sobre a atuação de cada funcionário e aluno dentro das escolas, dando por fim, a cada uma destas, vida própria, fazendo-as distintas umas das outras, embora – como mencionei anteriormente – todas elas tenham uma designada função essencial em comum.
Sobre o professor. Assim como encontramos aqueles que dentro da escola seguem cegamente as normas sem questioná-las, ou por ignorância ou por submissão, e até mesmo acomodação, há aqueles que críticos, procuram caminhos alheios para educar, pondo à prova os conteúdos que normalmente são ensinados e as estruturas ortodoxas impostas. Portanto, sob o meu juízo, o professor deve ao mesmo tempo em que educa ser educado. Deve não só aprender o conteúdo a compartilhar com os seus alunos, mas questionar incessantemente sobre os objetivos da escolha de cada conteúdo. Deve estar ciente da ampla função do professor e da escola, sua contribuição micro e macro dentro de uma sociedade, tal como deve também lembrar que a escola não está disponível unicamente por decisão de qualquer governante filantropo, mas sim para forjar cidadãos que respeitem as balizas do sistema ditado pelo governante.
Se não podemos de uma vez, num ato tal como vimos no famoso clipe “Another Brick in the Wall”, de Pink Floyd[1], submeter a escola às nossas reais necessidades, que submetamo-na de outra forma, através de palavras aos nossos alunos. Que não sejamos hipócritas, ou cúmplices da hipocrisia.
[1] "Another Brick in the Wall" é uma faixa do álbum The Wall, da banda inglesa Pink Floyd. É dividida em três partes, sendo elas "Parte I", "Parte II" e "Parte III". Todas as partes foram compostas pelo baixista Roger Waters. A música é basicamente uma crítica ao rígido sistema educacional de uma época.
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