Se educar compreende adequar um cidadão à vida em sociedade, entende-se – de acordo com um raciocínio lógico – que o que se aprende não parecerá distante ou tão pouco estranho ao estudante. Uma vez que o que se supõe aprender – de acordo ainda com um raciocínio lógico - dirá respeito às circunstâncias da vida em sociedade, fatos palpáveis do cotidiano. Nada mais óbvio então do que esperar que o estudante entenda o tempo e o ambiente de aprendizagem como algo no mínimo plausível, que lhe faça sentido, que possa, a cada risco no quadro e a cada palavra proferida pelo professor, perceber o vínculo entre o que se estuda e o que se vive. Mas então por que lhes parece tão indecifrável e sem sentido a maioria daquelas contas matemáticas e fórmulas químicas, ou histórias de povos tão distantes às suas culturas?
Gosto das idéias de Paulo Freire. E nesse momento escrevo sobre um de suas idéias que apesar de geniais, muito simples. Ao educar pedreiros e agricultores, Freire pensava por que usar palavras distantes de suas realidades quando se pode, por outro lado, adequar o vocabulário ao dia-a-dia daqueles estudantes? Que se fale de tijolos, cimento, que se fale da terra, da alface. Que este seja o bê-á-bá deles, que separem em sílabas seus tijolos e alfaces. Não. Não pensem que com isso os submeteríamos a condição de miseráveis trabalhadores. Pois isso já o são. Melhor então que saibam, e com uma educação voltada para suas vidas, entendam suas posições políticas e históricas dentro da sociedade que estão inseridos. E que depende deles a manutenção de tal posição social.
Com base nas idéias de Freire, penso então que é nossa função como professores mostrar a cada aluno, de forma transparente e verdadeira, os lugares que ocupam e que podem ocupar. Mostrar-lhes a cultura que os familiariza com o passado e o meio presente, e denunciar as que lhes querem incutir à força. Devemos lhes perguntar, devemos ouvir. Que procuremos num primeiro contato, saber sobre seus mundos, sensibilizar com suas causas. Que procuremos saber sobre a comunidade onde vivem e então falar-lhes um português inteligível. Que sentido fará para um garoto negro, por exemplo, morador de uma comunidade carente, a história dos gregos e romanos? Nada, ou quase nada! No máximo uma boa estória que entretém. Mas estória com o objetivo restrito de entreter que se leia em casa. Pois a história que se ensina num ambiente de aprendizagem deve, em minha opinião, visar antes a conscientização, o desenvolvimento do raciocínio político, social e cultural. Que se ensine sobre as vicissitudes do dia-a-dia, que deixe o cidadão forte, armado para a vida, que deve querer-lo menos que a morte. Sim, pois falo da grande maioria desbastada.
Perguntem-me então caros colegas! Aquilo que não quer calar.
E se estivermos de mãos atadas? E se nós professores tivermos que cumprir pré-determinados conteúdos em pré-determinados espaços de tempo? E se desta forma não estiver ao nosso alcance cumprir uma perspectiva própria de ensino?
Meus colegas, futuros honoráveis professores. Quem serei eu para saber o que dizer-lhes nesta hora? Não poderia lhes dizer o que é certo e o que é errado, pois nem mesmo exerci a profissão da qual falo neste momento. Porém, o que falo é com base em minha longa experiência como aluno e minha breve experiência acadêmica, ou mesmo experiência de vida adulta. E se não tenho a intenção de dizer-lhes o certo ou o errado, deixo ao menos minha sincera opinião de humano simples e errante: Sejamos honestos com nossos estudantes. Sejamos honestos com nós mesmos. Não nos imaginemos mestres, mas sim estudantes mais velhos com muito a contribuir aos mais novos[1]. Que lhes mostremos, por exemplo, o que é um currículo e para que serve, e à que lhes submete e nos submete, e o que gostaríamos de ensinar e o que poderemos ensinar por conta disso. Que nossos atos sejam tentativas meus amigos, e não fórmulas prontas, por mais que as amarras venham a nos limitar.
[1] Pensamento de meu professor de capoeira, Mestre Pinóquio (apesar de sua sábia modéstia, o chamamos de mestre).

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