quinta-feira, 15 de setembro de 2011

“PORQUE NÃO” NÃO É RESPOSTA. E “PORQUE SIM”, É?

           Aos pais,      

      Senhores adultos responsáveis, aprendi que tenho que ir à escola “porque sim”. Entendi que a matemática é necessária e que um dia eu vou entender o porquê e “tá acabado”. Entendi que estudar os gregos e romanos é bonito e que toda sexta-feira temos aula de artes onde fazemos desenhos e pensamos: “nem tudo na escola é chato”. Assim como entendi que temos duas aulas de educação-física durante a semana para pensarmos: “ir a escola ainda faz algum sentido, nela também nos divertimos”. Aprendi que devo saber conjugar todos os verbos, só não entendo por que mesmo nunca usando aquele tal “vós”, somos obrigados a estudá-lo. Mas a professora disse que era importante “porque sim” e ficou tudo certo. “Porque sim”, para nós crianças, é igual “amém” para os religiosos, muito convincente. Perguntei por que as carteiras eram alinhadas, as paredes eram brancas, as roupas eram iguais, e me disseram: “porque sim”. Aprendi que o aluno obedece ao professor, o professor ao diretor e este a deus. Ou seria ao presidente? Não sei. Isso ainda não está muito claro pra mim, mas no fim todas estas figuras mandam, e não devem ser questionadas, isso eu bem entendo. Por fim, aprendi que estudar é importante e não é difícil, só não faz muito sentido... Mas é assim mesmo. “PORQUE SIM”!

Assinado: Joãzinho Aluno (que significa: Joãozinho que não tem luz, desalumiado, apagado, burro, esperando a salvação. De quem?)

"Another Brick in The Wall"

      A escola, a meu ver, é antes de qualquer coisa, um instrumento para preparar grupos que serão inseridos num sistema social-político maior. Desta forma me parece nítida a intenção de cada detalhe da estrutura escolar, desde a organização física até a estrutura hierárquica burocrática de se reger uma escola.
      Exponho de maneira rasa neste primeiro parágrafo, a minha opinião sobre a intenção básica designada a instituição escolar. Desígnio ditado por poucos, visando atender aos interesses de poucos (a classe dominante). Mas por outro lado não ousaria ignorar que dentro da escola encontramos indivíduos, que como indivíduos têm idéias próprias e peculiares. E aí caberia a discussão sobre a função e os desafios de cada professor. Tal como também caberia a discussão sobre a atuação de cada funcionário e aluno dentro das escolas, dando por fim, a cada uma destas, vida própria, fazendo-as distintas umas das outras, embora – como mencionei anteriormente – todas elas tenham uma designada função essencial em comum.
      Sobre o professor. Assim como encontramos aqueles que dentro da escola seguem cegamente as normas sem questioná-las, ou por ignorância ou por submissão, e até mesmo acomodação, há aqueles que críticos, procuram caminhos alheios para educar, pondo à prova os conteúdos que normalmente são ensinados e as estruturas ortodoxas impostas. Portanto, sob o meu juízo, o professor deve ao mesmo tempo em que educa ser educado. Deve não só aprender o conteúdo a compartilhar com os seus alunos, mas questionar incessantemente sobre os objetivos da escolha de cada conteúdo. Deve estar ciente da ampla função do professor e da escola, sua contribuição micro e macro dentro de uma sociedade, tal como deve também lembrar que a escola não está disponível unicamente por decisão de qualquer governante filantropo, mas sim para forjar cidadãos que respeitem as balizas do sistema ditado pelo governante.
      Se não podemos de uma vez, num ato tal como vimos no famoso clipe “Another Brick in the Wall”, de Pink Floyd[1], submeter a escola às nossas reais necessidades, que submetamo-na de outra forma, através de palavras aos nossos alunos. Que não sejamos hipócritas, ou cúmplices da hipocrisia.   


[1] "Another Brick in the Wall" é uma faixa do álbum The Wall, da banda inglesa Pink Floyd. É dividida em três partes, sendo elas "Parte I", "Parte II" e "Parte III". Todas as partes foram compostas pelo baixista Roger Waters. A música é basicamente uma crítica ao rígido sistema educacional de uma época.